2009/07/08

Pique


O que deve levar para um piquenique:


Deve levar tudo o que se lembre e essa ideia de que só se deve levar o absolutamente indispensável é absolutamente desajustada. Sendo assim, eis as coisas a levar para viver a sério um piquenique:

1 – A televisão. Nada melhor do que em plena natureza, desfrutar de um belíssimo filme com Richard Dean Anderson ou David Hasselhoff. São sempre muito apetecíveis. E é bom ver estas aventuras ao som do relinchar dos grilos. E não me venham agora dizer que os grilos não relincham.

2 – O Blackberry. Para estar atento ao índice Nasdaq. Conheço muito boa gente que se mete em piqueniques destes armado aos cucos e depois perde oportunidades incríveis de negócio por não estar devidamente actualizado. E depois queixam-se que é a crise.

3 – A bandeira de Portugal. As pessoas parece-me que agora só usam as bandeiras nas varandas ou quando a selecção joga. E não devia ser assim. A bandeira de Portugal devia ser usada para marcar território como fez - e muito bem - o Neil Armstrong quando chegou à lua. Deve pois chegar-se ao local escolhido para o piquenique e erguer a bandeira do nosso país para toda a gente perceber onde está. E antes de atacar o presunto, sugiro que se cante o hino.

4 – Panados. Os panados são essenciais a qualquer piquenique. Aliás, acho que a sua comercialização só devia ser feita para este fim. Exactamente como acontece por exemplo com as farturas, que só são vendidas em roulottes de entusiásticas celebrações populares. Ninguém no seu perfeito juízo vai a uma pastelaria e pede uma fartura, do mesmo modo que ninguém faz panados para comer ao jantar. Panados é para um piquenique.

5 – Esparguete. O esparguete é possivelmente o nutriente mais útil para este tipo de actividade lúdica. E porquê? Porque não só dá para uma rápida e muito práctica refeição, como serve igualmente para jogar Mikado, que é um jogo muitíssimo bonito. Atenção que podem jogar mikado e depois comer o esparguete, mas o contrário é manifestamente impossível.

6 – Berma da Estrada. O melhor sitio onde se deve fazer um piquenique é a berma da estrada de uma boa estrada nacional. É certo que as bermas da estrada e também as esquinas de rua gozam de má fama, mas está na altura de alguém lhes devolver a dignidade que outrora tiveram. Estar num piquenique e ir cumprimentando os carros que passam, é dos exercícios cívicos mais salutares que poderão experimentar. É nestas ocasiões que se pode encontrar o primo que há tanto não se via ou o vizinho da frente que julgávamos ter falecido. A desvantagem é que atendendo à velocidade com que passam é impossível manter qualquer tipo de diálogo. E é uma pena.

7 – A mesa da sala de jantar. É isto que estão a ler e a verdade tem que ser dita. As mesas dos piqueniques são demasiado frágeis e basta vir uma rabanada de vento e caiem os panados ao chão. Não é que não saibam bem, também bem assim, mas a terra às vezes pode não estar bem tratada e acabamos a comer pesticidas variados e seguramente nocivos.

8 – O sofá lá de casa. Não me venham com essas cadeirinhas que se compram à beira da praia, que eu não compro. Nestas coisas, quando fazemos um piquenique, devemos sentirmo-nos em casa. E nada melhor, do que levar uma parte dela connosco. O sofá é essencial e se for um de 6 lugares tanto melhor. Nada melhor do que ter uma família numerosa, sentado num sofá, vendo televisão de pés estendidos na relva e com a selva amazónica a abraçá-los de fundo.

9 – Um chapéu de uma conhecida marca de tintas. Perdeu-se o hábito de se usar chapéu em Portugal, será possivelmente uma tendência universal – maldita globalização – mas a verdade é que nestas ocasiões as mulheres devem usar um daqueles chapéus de palha que estão sempre a voar com o vento. E o homem deve fazer uso de um bom chapéu amarelo metido entre as orelhas e com a marca de tintas na pala. Isto faz-me sempre lembrar alguns filmes franceses pouquíssimo ortodoxos.

10 – Rádio para ouvir o relato. É certo que há televisor, mas não contem com tvcabo no meio da floresta porque não vai haver. E o Benfica pode muito bem estar a jogar contra o Alverca e nós a perdermos lances importantes para a nossa edificação enquanto pessoas e seres humanos extraordinários. Os da renascença são muito bons porque têm o Ribeiro Cristóvão. E é delicioso ouvir a harmoniosa junção do som da televisão, do relato e do barulho das crianças, com o som límpido da natureza.

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