2009/12/01

O Jumbo


Uma pessoa vai ao Jumbo, passeia-se rapidamente pelos 352 corredores em busca do que precisa, perde tempo na zona da fruta e dos legumes à procura das balanças que tenham as maçãs Fuji, as bananas nacionais, as cebolas e o camandro, passa frio nos corredores dos iogurtes e queijos e lacticínios no geral, finta famílias inteiras - avós incluídas, assiste a birras monumentais de crianças, a pais desesperados, tudo isto sem perder a calma nem atropelar ninguém com o carrinho, para no fim chegar às caixas - a terra prometida, o pote de ouro no fim do arco-íris - e ser obrigada a perder tempo a ler todos os letreiros por cima das ditas sob pena de estarmos numa caixa que não foi posta ali a pensar em nós. Há caixas para as grávidas e deficientes e isso eu percebo e aceito; há caixas para quem paga com o cartão Jumbo, é chato, mas tudo bem; há caixas para quem só tem 15 coisas, esta também percebo; há caixas para quem vai querer as compras entregues em casa, puta que pariu; há caixas para quem é verde e recicla, estão a gozar? E mesmo que se queira fugir, dar o grito do Ipiranga e abraçar as caixas faça você mesmo e pague sem chatear ninguém, é impossível porque são só para quem tem até 15 merdas. Já que não se pode combater estas ideias peregrinas, o melhor mesmo é juntarmo-nos e contribuir para o humor retorcido dos senhores do Jumbo, pelo que estou a pensar escrever uma série de propostas e enviar para lá, em jeito de contribuição logística. Para quando caixas reservadas a virgens quarentonas? E a vegetarianos convictos que colhem ervas aromáticas às primeiras horas da manhã? E caixas para pessoas feias, para pessoas gordas, magras, que usam bombazine, para quem calça mais de 40, para quem não come carne de vaca, para quem não sabe dançar e para quem só bebe leite de soja? E caixas exclusivas para gente de cabelo aos caracóis? E para religiosos e ateus? E seria simpático ter caixas verdes, vermelhas e azuis especialmente concebidas para os ferrenhos da bola e apaixonados clubísticos no geral. Se há caixões assim, porque não caixas de supermercado?

2009/10/21

"No dia em que eu me transformar num CD, serei aquele que tiver todos os temas de que tu gostas. Serei um CD que demore muito a procurar, para rapidamente perceberes que será melhor se o deixares permanecer a teu lado, o tempo todo, para de quando em vez o ouvires a cantar para ti e o utilizares de forma cuidada. Para não me arranhares.


Serei um CD de edição limitada, raríssima, que não está à venda nas lojas habituais muito menos nos anúncios das Televendas. Serei o teu bem mais precioso, um CD brilhante, com as melhores críticas nos jornais especializados e que todos comentam à porta dos concertos.

Serei um CD só teu, para ouvires sozinha quando todos se tiverem ido embora. Ansioso para que me tires da caixa onde permaneço embrulhado, na esperança de que me insiras na gaveta da aparelhagem e me ouças a derrubar o silêncio, como se te segredasse algo ao ouvido. E chega-te bem a mim para que eu te veja os olhos e põe o volume no máximo para me sentires bem alto e me descobrires a cada tema que passa. E só depois de me ouvires todo é que me podes fechar novamente, na triste escuridão de uma caixa de CD, que nada mais espera que não seja o outro dia, o da manhã seguinte, quando tu me abrires para ouvir outra vez.
E aqui onde estou, neste feliz repouso, vou já avisando que sinto ciúmes dos CD'S da moda, desde os velhinhos Rolling Stones ao novo dos Air. Que não suporto a altivez das colectâneas de sucesso nem muito menos dos novos CD's, que esperam vir a ser inquilinos do mesmo tecto. E, já agora, que não consigo disfarçar o ódio de estimação que tenho pelos CD's de música erudita que têm a mania que são mais que os outros, imigrantes de luxo, novos ricos sem gosto.
Quero que saibas que eu sou o teu CD mais dedicado. Que uma noite sem ti, são muitos meses. Que um dia sem ti, são muitos anos.”


2009/10/10




Está tudo bêbado e eu já não sei se estarei a ver bem. Mas parece-me, mesmo cambaleando, que ao sairmos à noite, todos queremos ficar bêbados mais depressa. E isto não terá sido sempre assim.

Há uma pressa em ficar bêbado que é típica de quem quer esquecer alguma coisa rápido. Eu não sei o que quer esquecer Portugal que nos obrigue a isto, mas também não faço ideia o que faz com que ingleses, suecos, finlandeses, irlandeses e escoceses ( só para citar alguns exemplos) também o façam. Mas gostava.

Há uma pressão alta para nos divertirmos. Toda a gente nos pressiona a isso e criou-se o estigma de que se não nos divertimos, não terá valido a pena. E ao sairmos de casa dizem-nos a gritar da sala do fundo: diverte-te! E ao chegarmos vivos, é invariável que alguém nos pergunte: Então divertiste-te? E é esta obsessão que nos faz beber depressa para que possamos estar tão divertidos quanto os outros e muitas das vezes, mais ainda. Com um problema: se não nos estamos a divertir, bebemos para o conseguir. Se estamos já divertidos, bebemos para ficar mais ainda. Só que agora, mais depressa, como se tivéssemos medo de estar sóbrios.

Contudo, o problema do álcool é que, salvo raras excepções, não faz de nós uma outra pessoa, mas potencia, isso sim, aquilo que já somos. Daí que os ingleses, tradicionalmente mais reservados e metódicos, tenham péssimas bebedeiras, precisamente por quererem transformar-se naquilo que não são. Já os irlandeses e escoceses, que têm fama de gajos porreiros, têm bebedeiras tão boas que chegam a não ter ressacas. E isso faz deles ainda mais porreiros. E isto explica que os portugueses, tradicionalmente saudosistas, quando fiquem bêbados se abracem uns aos outros para lembrar o passado e chorá-lo se for caso disso. Só que agora, mais depressa. Muito mais depressa.