
Receber o catálogo do Ikea
No dia em que chega o catálogo do IKEA, o coração enche-se-nos de alegria. O instinto é desligar os telefones e net, evitar contacto com o mundo, calçar as pantufas e saltar para o sofá. Movem-se as páginas, cada secção um plano de vida, um revirar de olhos romântico, qual Floribela a suspirar pelo seu Djaló. Olhamos para as cozinhas, com gavetas todas cheias de divisões e recantos e imaginamos refeições em família. Ovos estrelados para o pequeno-almoço, uma festinha na cabeça do mais novo, o cão a ladrar, um marido sorridente e orgulhoso. Depois as salas, tão bonitas, tão boas para enfiarmos todos os amigos do Facebook, os livrinhos arrumados nas estantes Billy. E as casas de banho, tão limpas que se pode comer no lavatório e tudo. Ao ver os quartos, claro, é difícil não sonhar com um ninho de amor. Quem é que discute num quarto IKEA? Impossível. Folhear o catálogo é imaginar uma vida cor-de-rosa e fofinha. É sonhar com as idas a dois à loja. “Levamos o candeeiro Antifoni ou o Barometer? Escolhe tu, amorzinho. Não, tu é que és o mais querido. Não, tu é que és. É o Antifoni? Tu é que sabes, docinho de coco”. Com o virar da última folha regressa-se à triste realidade. E à contagem decrescente até ao próximo catálogo.
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