
Juro. Juro por Deus que não volto a sair à noite de saltos altos enfiados nos pés. Os doze centímetros que ganho em altura, em pose, em estilo, em olhares desejosos deles e olhares invejosos delas, não compensam as dores dos apertos, os desequilíbrios vertiginosos ao fim de três gins tónicos. E eu juro sempre. Mas uma mulher a dançar de ténis é como pôr os cotovelos na mesa. Dá jeito, mas não cai bem. Dizem.
Meia hora para recolher o casaco. E quantas vezes já jurei que não vale a pena trazê-lo, que em Lisboa nunca há frio que o justifique, que os sete graus que se fazem sentir em algumas noites são coisa momentânea, só o tempo de entrar e sair, que lá dentro não falta (nunca faltará) o calor. Mas nunca cumpro o que prometo. E por isso espero meia hora. E enervo-me com o casal que anda às voltas com o primeiro beijo. Ele insinua-se, ela finge que não percebe. Ela põe-se a jeito, ele pergunta se ela lhe dá um cigarro. Se soubessem que um primeiro beijo decide tudo, que não mais haverá outro assim, com aquela intensidade, com aquela pressão que só se impõe aos lábios num primeiro beijo, deixavam-se de coisas e começavam a ser felizes naquele instante. Mesmo que a felicidade só durasse o tempo daquele beijo.
Os pés latejam, e eu juro que se não me derem o casaco em três minutos, descalço-me e acabou-se. Adeus estilo, adeus pose, adeus altura, olá olhares de pena, que se lixe. Sempre quis ser protagonista de uma cena decadente. Parar de dançar quando as mãos se põem à frente dos olhos para os proteger do sol, sair de sapatos na mão, rímel a escorrer, baton vermelho a ultrapassar em muito e há muito os limites dos lábios, cabelo com nós, meias com malhas, passo trocado. E ameaçar, aos gritos, que me atiro ao Tejo. Promessas. Recupero o casaco, saio em silêncio.
Gosto de ver a fila de quem espera para entrar. Os que se impacientam. Os que riem alto. Os que aguardam com indiferença, é só mais uma noite, aqui, noutro lado, tanto faz. Sinto o orgulho de quem já está de saída, de quem já foi aprovado. E tento adivinhar quem não terá a mesma sorte e será gentil e subtilmente barrado com um convite para voltar outro dia. Que é o mesmo que dizer para não voltar. As três adolescentes excessivamente produzidas, excessivamente velhas para a idade que têm. O grupo da despedida de solteira, laços XL na cabeça, gritos que apitam nos ouvidos. Os dois caloiros acabados de aterrar na civilização, ar compostinho. Talvez o homem sozinho, de fato preto, que tentará entrar pela força da sedução. O que é que eu percebo? Se soubesse a palavra mágica, aquela que garante a aprovação directa e o acesso triunfal, fazia negócio com isso. Mas também eu já tive que voltar outro dia.
Enfrento mais uma fila. Porque há muito que deixei de jurar que só saio de carro. Uma vida para estacionar, outra vida para o encontrar, e as operações STOP do demónio, que me fazem revirar a mala em busca do cartão de crédito. Mas se enchem os cofres ao Estado então ninguém leva a mal e até se contribui com mais alegria, sorriso nos lábios e um desejo interior: que o senhor agente chegue a casa e encontre a mulher em infracção. Aí sempre quero ver se não lhe passa a vontade de distribuir multas (autuar, é como se diz). E por isso volto de táxi. E por isso sujeito-me. Às filas e às bebedeiras de quem não aguenta o álcool em silêncio. Como se eu berrasse por me doerem os pés. Logo a mim, que jurei nunca mais calçar saltos.
Os condutores são analisados com o método possível para as horas e para o álcool que já se leva dentro. E passa-se a vez quando não se gosta. Ar de pedófilo, passo a vez. Ar de quem vai dar azo a conversas erótico-repelentes, passo a vez. Ar de acelera, passo a vez, que se fosse para me pôr em perigo tinha trazido eu o carro. Ar de quem me vai tentar converter às Testemunhas de Jeová, passo a vez. Ar de quem vai falar de “como isto está” e antes-um-filho-morto-que-gay, passo a vez. Ar de quem vai discutir o penalti que roubaram ao Benfica, passo a vez. Ar de quem vai afirmar que bate na mulher, mas que não lhe falta com o dinheiro ao fim do mês, passo. Ar de quem só vai perguntar o destino e remeter–se ao silêncio, entro.
O melhor do fim da noite é encostar a cabeça e ser conduzida. Tirar, por fim, os sapatos, amarrar o cabelo a um elástico. E eu juro sempre que não vou adormecer, que o medo de acabar estraçalhada numa bagageira tem que ser maior que o sono. Mas confio. Abro os olhos quando posso. Entre imagens recortadas vejo a água do Tejo, que à noite é roxa quase preta. E as luzes da ponte. A recolha do lixo. Os semáforos intermitentes. A cidade em obras. Ainda ninguém percebeu que obras à noite são tão indesejadas como de dia? Inocentes os que acreditam que a noite é amiga da tolerância. E penso na música que me esqueci de perguntar o que era. No telefone que pediram e não quis dar. No telefone que quis dar mas ninguém pediu. Como é que ainda há tanta gente a dormir na rua? Vá por onde for mais rápido, é-me indiferente.
Não há silêncio. Silêncio e taxistas são termos incompatíveis. Nem os mais tímidos resistem. A dor de cabeça alheia é coisa que nunca se respeitou num táxi. E se não são as palavras, é a música. Demasiado alta, demasiado má. Ou então a Retalis, o melhor amigo dos taxistas, o santo de devoção. “Um táxi ao Marquês, por favor”, “acabei de atropelar uma pessoa, acho que já não respira, quais são os procedimentos?”. Acordo e adormeço e acordo. À noite não há trânsito, mas demora-se mais tempo. As ruas vazias provocam este efeito. E o taxímetro que não se compadece.
Não quero que falem comigo. Que me obriguem a pensar ou a decidir o destino da humanidade. Não sei se amanhã vai chover ou se este é o ano mais seco dos últimos 50 anos. Porque é que não lhe pedi o telefone? A velocidade abranda. Tacteio pelo chão do táxi à procura dos sapatos. Um. O outro. O olhar desconfiado pelo retrovisor. Porque todos os dias se ouvem casos de mulheres que fugiram de um táxi sem pagar. Saltos de doze centímetros, loucos, a correr pela calçada. Calço-me a custo. Os pés cresceram. São mesmo estes os sapatos?
Pago. Deixo a gorjeta possível. Se insistir no olhar de desdém pode passá-la para cá outra vez, que a mim ninguém me dá gorjetas por fazer o meu trabalho. Boa noite. Boa noite. Os pés no chão ameaçam explodir se mais um passo for dado. E eu juro. Juro por Deus que não volto a sair de saltos.
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