2009/02/12


A CR7 – loja de roupa de Cristiano Ronaldo – é mais ou menos como comprar uma casa desenhada por Siza Vieira e decorá-la com dálmatas de loiça. Ou seja, é espaçosa, agradável, de traços moderno-minimalistas, pintada com as cores da moda. Vê-se que houve investimento num designer de interiores, que ter dinheiro, muito, faz a diferença. O problema é quando se esbarra no conteúdo e na roupa propriamente dita – ao nível de um dálmata de loiça.

Há relações assim, que não nasceram para dar certo. A nossa relação com a CR7 é disso exemplo. O primeiro contacto que houve com a loja e com a sua gerente (Cátia Aveiro, irmã de Ronaldo, conhecida no meio das cantigas como Ronalda) tinha tudo para dar certo.

Agendou-se o encontro, a visita à loja, dia acertado, horas acertadas. E lá estávamos, como combinado, felizes e expectantes. A funcionária que nos recebeu, solícita e cumpridora do seu dever, deslocou-se ao escritório para anunciar a nossa presença (com trombetas e confettis, acreditamos nós). E quando esperávamos ser surpreendidos com a imagem desse grande vulto da canção nacional, eis que a funcionária (cujo nome, mea culpa, não recordamos) volta sozinha, Ronalda nem vê-la. Que mandava dizer – qual monarca que faz uso do pajem mensageiro quando não está para se chatear –, que não nos podia atender, que estava numa reunião, que voltássemos a outra hora, seria possível? Não era possível. Já ali estávamos, a viagem estava feita, a gasolina gasta, o horário combinado era aquele. Um telefonema de aviso tivesse havido e tudo seria diferente. Assim não, não era possível.

Diligente, a funcionária voltou a sair de cena para logo regressar a abanar a cabeça em jeito de negação (ou seria um pedido de desculpas?): “a D. Cátia não pode sair da reunião e diz que não tinha nada marcado para hoje na agenda dela.” Como pessoas de boa-fé que somos, preferimos acreditar que a agenda era electrónica e que foi possuída por um qualquer vírus devorador de marcações. Ou que era de papel e, por infortúnio do destino, se perdeu para todo o sempre num incêndio fatalista. Antes isso que pensar que Ronalda, tão nova, já padece de tão graves problemas de memória.

Seguiu-se uma segunda visita à CR7, desta feita como se de clientes normais nos tratássemos, sem pré-aviso. E confirmou-se o mesmo que da primeira vez: a loja estava às moscas, o silêncio apenas interrompido pela música ambiente. Pode ser da localização, nos arrabaldes da Expo, mas desconfiamos que tem mais a ver com o produto. É que a CR7, pelos preços e pelos modelos expostos, parece ter sido uma loja feita por um jogador da bola para outros jogadores da bola (e respectivas esposas e rebentos). Tudo com muito brilhante, muito padrão tigresse, muitos tecidos acetinados, muitas camisas com folhinhos, muitas botas de salto compensado, muito a armar ao pingarelho. Os preços não ajudam à festa: boxers a 40 euros, luvas de pêlo e pedraria brilhante a 62 euros, uma banal t-shirt cinzenta a 79,90, ou um cinto com fivela CR7 por 98 euros são meros exemplos.

As peças, na sua maioria vindas de Itália, são escolhidas por Cátia Aveiro. E, claro, é logo tudo marcadinho com o logo CR7, para que ninguém esqueça que é Cristiano Ronaldo quem patrocina a brincadeira (e porque o nome do jogador é logo meio caminho andado para inflacionar o preço das peças). Quem vai à procura de cachecóis, bandeiras e camisolas com a cara do craque, desengane-se, que aqui não há nada disso. Referências ao mundo da bola, só mesmo nos botões de punho, em forma de campo de futebol. Ou na bonita garrafa de champanhe do Manchester United, orgulhosamente exposta na montra.

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