2008/11/16

Destroçe


Que haja quem oriente as manobras de estacionamento a troco de uma moeda, percebe-se. Não se gosta, mas percebe-se, que remédio, é isso ou um risco de uma ponta à outra do carro. Mas que haja quem o faça só por ser um bom cidadão, provoca-nos um quentinho na alma. Quando a distância para o carro da frente e para o carro de trás não é mais do que 0,23 milímetros, quando se está ali para trás-e-para-a-frente-e-para-trás-e-para-a-frente-e-para-trás-e-para-a-frente, que parece que não se sai do mesmo sítio, quando já só se gritam palavrões (“filhos da put#, que não podiam ter estacionado mais em cima de mim, oh, que cara”#$, fossem mas é todos apanhar no ra%&”), quando as lágrimas já assomam aos olhos, é nessa altura que surge o cidadão benfeitor. Não traz uma capa nem vem a voar, mas podia, tamanho o acto heróico. Ele manda torcer e distorcer, ele diz “’tá bom, agora p’rá frente”, ele diz “tá bom, agora p’ra trás”, ele diz “pode vir, é à confiança”, ele manda parar o trânsito, qual autoridade máxima, para que possamos prosseguir em segurança. E cobra-nos pela ajuda? Não, ainda nos deseja uma boa viagem, não é como uns e outros que só querem que o lugar fique vago rapidamente para poderem explorar outro condutor. No final, a separação custa. Olhar pelo retrovisor e ver o cidadão cada vez mais pequenino, mãozinha a acenar um adeus emocionado. Uma pessoa afeiçoa-se, que fazer?

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