
Não sou uma pessoa muito dada a trafulhices. Regra geral, sou uma cidadã da qual o país se pode orgulhar. Moderadamente, vá. Se encontrar carteiras vou devolvê-las à polícia, mesmo que isso implique passar lá duas horas a contar a história da minha vida. Como nunca encontrei nenhuma carteira com dinheiro (damn it!), não posso assegurar com toda a certezinha do mundo que não desviaria uma nota ou outra. Ou todas, pronto, que se é para roubar, é para roubar logo assim à grande. Se se enganam no troco tendo a alertar os senhores funcionários. Ainda hoje aconteceu, no bar da faculdade. A senhora só me ia cobrar o gelado (ah, e tal, depois queixa-se da celulite, a lambona, a enfiar gelados pró bucho), e eu lá tive de a lembrar que ainda faltavam o café e a água. Mas depois há coisas que são mais fortes do que eu, e aí meus amigos, nada a fazer. Hoje passei na Zara, uma daquelas entradas por saídas que é suposto não resultarem em compras, mas que acabou comigo a trazer um vestido e um casaco. Ora cheguei à caixa, a senhora registou as duas peças, tirou os alarmes, e quando me anuncia o preço... era metade do suposto. Percebi que faltava ali qualquer coisa. Por dois segundos ingénuos, achei que podia ter havido uma qualquer redução de preços. Às vezes esses milagres dão-se. A etiqueta marca uma coisa, e vai-se a pagar e é mais barato. Mas foram só mesmo dois segundos, porque, pelo valor, e não sendo época de saldos, o desconto não podia ter sido assim tão grande. Mas, claro, calei-me que nem um rato, fiz-me de morta, e estendi o cartão para pagar o que a menina me disse. Quando me passou o recibo para as mãos, percebi que ela só tinha registado o vestido, casaco nem vê-lo. Fiz o meu ar mais normalzinho, então obrigadinha, até à próxima, cumprimentos lá em casa, e pus-me a andar. Por momentos temi que ela se tivesse esquecido do alarme e que aquilo começasse a tocar à saída. Como é que eu ia explicar ao senhor segurança de 2 metros por 1,5m que levava uma peça com alarme dentro do saco, da qual não tinha recibo? Mas não, nada, foi uma saída triunfal. Subi a rua quase a correr e enfiei-me logo no carro, não fosse a mulher dar pela falta e largar atrás de mim, agarra que é trafulha. Passado o momento da glória, a consciência começou a pesar. Enviei uma mensagem ao meu homem, que me disse que eu já tinha dado muito dinheiro a ganhar àquela gente. Não convencida, e com medo que a menina da caixa tivesse de repor o dinheiro do bolso dela, perguntei a um amigo, que me assegurou que a Zara e outras do género têm uma margem só para cobrir casos destes. De gente pouco honesta, como eu, quis ele dizer. A verdade é que não tenho qualquer pudor em trapacear lojas assim. Primeiro, porque deixo lá rios de dinheiro todos os meses. Segundo, porque os senhores têm margens de lucro que devem rondar os 700%, não são os 20€ ou 30€ que eu deixo de pagar que os vão prejudicar. Terceiro, e porque bem vistas as coisas, a culpa foi deles, que se enganaram. Eu, como pessoa bem mandada que sou, limitei-me a pagar o que me mandaram. Claro que se se tivessem enganado a favor deles, aí ninguém me calaria, era ver-me a rodar a baiana ao melhor nível.
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