2009/04/29


Houve um tempo em Portugal em que era bom casarmo-nos. Eu sou desse tempo. E nesse tempo, os homens quando se casavam sabiam que faziam bom negócio, pois todos nós gostamos de tomar pequeno almoço na cama e ter uma camisa bem passada sem ter que dar 8 euros (...).

Aliás, nesse tempo era tão bom estar casado, que nós homens chegávamos a pegar numa tranche de roupa com camisolas, calças e meias e, ao entregarmos à nossa mulher, como se lhe tivéssemos a passar para as mãos um bebé lindo fruto do nosso amor, dizíamos: Toma meu amor! É para ti! E se no fim percebíamos que a roupa estava mesmo bem lavada e com cheirinho a lavanda que é tão bom, não raras vezes pegávamos numa nota de 100 escudos ou até de 1000 e de mão esticada, com a nota erguida, a ela lhe dávamos, dizendo sempre. “ Toma para ti meu amor, já podes ir à manicure e encher-te de laca”.

E lá ia ela, toda sorridente, prontinha para ler a revista hola que sabia encontrar no salão e que seguramente traria novidades da monarquia espanhola. Bons velhos tempos esses, em que só existiam 2 canais e um ou outro espanhol na televisão, mas onde ninguém, ninguém, ninguém ouviram? ninguém necessitava de telecomando para fazer zapping. Era tão mais fácil e romântico fazê-lo ao gritar pelo nosso amor: Oh Maria põe na 2! Maria vem aqui pôr no canal espanhol! Maria Vem aqui ver o que está a dar no canal 1 ! E de cada vez que esta vinha, enchia-mos o nosso amor de beijos, enquanto lhe pedíamos para trazer mais uma imperial do frigorífico.

Mas esses tempos acabaram. Já ninguém casa só porque ela está grávida, como de resto, deveria ser sempre. Nesse tempo quando alguém dizia que se ia casar, ninguém no seu perfeito juízo reagia com espanto, tipo: Vais casar? Mas vais casar porquê? Ninguém perguntava, porque toda a gente sabia porquê. E assim quando alguém dizia que se ia casar, apenas se perguntava: Está de quantos meses?

Mas isso era dantes, já lá vai. As pessoas agora casam - imaginem ao que isto chegou - porque querem mesmo. Querem mesmo estar juntos, dividir uma casa, ter uma família, serem – imaginem só isto – serem felizes. E perceber que a felicidade só tem sentido se for partilhada.

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