2009/03/04

Cinderela


Hoje em dia a mulher não pode gostar de sapatos. Quem diz sapatos diz malas ou roupas em geral. Mas sapatos é mesmo o pior. As que gostam (essas vacas!, que não têm outro nome), deviam fazê-lo em silêncio, nunca revelando esse seu gosto. Se o querem revelar, deviam juntar um "perdão" no final, como se tivessem acabado de arrotar. Porque gostar de sapatos é feio, é mal educado, mil vezes mais reprovável do que cantar à mesa, não deixar a mulher passar primeiro, praticamente ao nível de cuspir para o chão. Quando se gosta mesmo muito muito, daqueles mesmo bonitos, chega até a ser crime e essas "senhoras" deviam ser apedrejadas até à morte, que isto de se gostar de sapatos consegue ser pior do que matar alguém. Porque sapatos bonitos são aquelas coisas do demo, que as mulheres só gostam por causa dessa série- igualmente demoníaca - uma tal de Sexo e a Cidade. Antes de haver essa série, as mulheres não gostavam de sapatos, não compravam sapatos. Andavam de socas e chinelos e o dinheiro ia todo no mercado, em legumes para a sopinha do marido.

É que gostar de móveis bonitos, monumentos bonitos, casas bonitas, carros bonitos, flores bonitas, tudo isso é normal, apreciado até. Mas sapatos? Porque raio gostar de sapatos bonitos? Só mesmo essas fúteis. E as burras, claro! Mulher que gosta de sapatos e que o revela à boca cheia só pode ser fútil, pouco inteligente, pouco culta e instruída. Porque está cientificamente provado que sapatos bonitos são incompatíveis com funcionamento cerebral. Aliás, uns sapatos bonitos nos pés impedem a sua utilizadora (essa criminosa) de se interessar por tudo o resto à sua volta. Arte, cultura, literatura, informação. Uma mulher que goste de sapatos está fisicamente incapacitada para usar o cérebro mais do 0,01% e essa percentagem é usada unicamente para pensar em... sapatos. Tanta gente que me pergunta como saí da faculdade com uma média tão alta e a explicação é simples: não gostava de sapatos. Ainda me lembro como se fosse hoje, antes de um exame, eu preparada para desenvolver sobre o Romantismo alemão em Goethe, quando o professor de literatura alemã me diz "oh minha filha, podes estar sossegada. Com esses sapatos tão feios, tens um 19 garantido".

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