
Chego à conclusão de que as pessoas têm medo de se apaixonarem porque têm medo de sofrer. Faz-me lembrar aquela velha situação em que tu chegas com um animal a casa e os teus pais o rejeitam liminarmente dizendo "mais um para termos um desgosto", "nem penses, leva-o daqui para for a enquanto é tempo" enquanto lhe vão fazendo uma festinha no focinho. A paixão é mais ou menos isto. Uma vontade de a agarrarmos sem reservas sem contudo a aceitarmos de ânimo leve. É isto não é? Uma vontade de ficarmos para toda a vida com ela mesmo sabendo que um destes dias o mais certo é morrer atropelada por alguém que não a viu a tempo. Talvez por isto, a minha paixão por ti atravessa sempre nas passadeiras e olha para os dois lados antes de chegar à outra margem. Quero que saibas que a minha paixão por ti é órfã de pai e mãe, mas vive feliz na casa do gaiato. Não tem vícios, não bebe, não fuma e já não tem a esperança de encontrar os parentes que a fizeram nascer. Talvez porque tenha aprendido a crescer sozinha e se tenha habituado a essa condição na certeza de que o mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta para o alcançar.
Fernando Alvim
Fernando Alvim
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