
Já se sabe. Uma vez por ano, a malta sai à rua para comemorar os Santos. É a loucura. De repente, parece que toda a gente em Lisboa se conhece, tudo mete conversa, tudo canta André Sardet e Toni Carreira a plenos pulmões, tudo cheira a churros e a sardinha, tudo passeia o bronze e a roupinha de verão, que faz sempre um calor que não se aguenta. Ninguém pode dizer com exactidão a que horas vai voltar para casa. Muito menos com quem. Ou como. Na Bica encontra-se toda a gente. Mesmo toda. Quem se quer e quem não se quer encontrar. "Baixa-te, rápido, vai ali o/a não sei das quantas". É o bom das multidões, dá para uma pessoa mergulhar e só voltar à superfície quando o perigo já tiver passado.
Na minha profunda análise sociológica aos Santos percebi que o clima de engate é muito mais cerrado que noutra ocasião qualquer. Não sei se é dos apertos, dos encontrões, dos senhores da banda a cantar "ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser" ou das litradas de cerveja, mas tanto eles como elas ficam como que possuídos pelo demónio. Ele é beijos apaixonados, ele é trocas de olhares furiososos, ele é fotografias com estranhos, ele é troca de números de telefone, ele é bocas e aproximações que não se teriam noutra noite qualquer, ele é abraços efusivos a quem já não se via há tempos, ele é mensagens a perguntar "onde andas?", ele é deixar passar a marcha da Bica, ele é gente que só mesmo nos Santos é que se enche de coragem e auto-estima para tentar a sua sorte, é uma alegria. Pelo menos uma vez por mês, devia haver uma noite de Santos. É a noite mais divertida do ano e tenho a certezinha que o número de solteiros baixaria drasticamente (assim como as depressões).
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