
Ainda não me esgotei, ainda aqui estou, ainda não saí de ti, estou aqui, agora, com uma persistência velhaca, a contar-te histórias muito antigas como aquela que quase aposto já não te recordas. A história da menina que pensava não saber amar, pois lhe tinham dito, na sua tenra idade, que o amor é coisa de graúdos, de idade adulta, a que nunca chegaria com o seu olhar infantil. O mesmo olhar, que tratou com cuidado as pequenas coisas a que se foi dedicando na esperança de que um destes dias o amor lhe aparecesse. E o amor não vinha nem dava sinais, porque já lá estava. Porque o amor não aparece, nasce, da mesma forma que não morre, mas se esgota. E então um dia percebeu que o amor era aquilo, uma coisa muito simples, nada complicada, uma desilusão até, com tudo aquilo que lhe haviam dito. E então, percebeu logo ali, que sempre tinha amado embora não soubesse. E que sempre tinha sido muito feliz embora não gozasse a plenitude dessa felicidade porque pensava que havia uma outra , outra versão da mesma coisa. E que sim, sempre fora realizada, embora julgasse que essa realização só seria absoluta com a existência desse amor que não vinha. E o amor, de facto, nunca veio, porque já tinha nascido, com ela, sem que no entanto desse conta.
O Amor não é palpável, é certo, nem voa nos céus em formatos cilíndricos, mas ainda assim vê-se, nos quadros, no cinema, no abraço quente, tão apertado quanto os outros , mas mais hermético, sem espaço para nenhum outro.
Fernando Alvim - No dia em que fugimos tu não estavas em casa
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