2007/05/26

Quando se gosta.


Li este texto do Fernando Alvim no Metro de 24/05/07 e gostei. Achei que devia ser propagado. Vale a pena ler.

Não é fácil gostar de alguém, mas quando se gosta, gosta-se e pronto, não há nada a fazer. Pensamos na pessoa o dia todo, e olhando para o tecto perguntamo-nos onde estará a outra pessoa naquele exacto momento em que pensamos nela. Onde estás? Ontem pensei em ti, hoje também, ainda agorinha mesmo estava a pensar em ti, e andamos nisto. Gostamos de alguém, não me perguntem agora porquê porque mesmo que eu vos quisesse dizer nunca saberia a resposta. Eu não sei o porquê! As pessoas gostam de saber porque diacho gostamos nós de alguém e isto não é fácil de explicar. Convenhamos: vi-a uma vez, talvez duas, o que não é muito eu sei, mas por que raio tem de existir uma regra que implica vermos mais do que uma vez alguém para sabermos que gostamos dela? E depois, alguns puritanos perguntam-nos: "Ai sim, gostas dela, então de que cor são os olhos dela? Como é que ela se chama?" Como se ao não sabermos responder a qualquer uma das perguntas ficasse assim provado que não gostávamos desse alguém. Mentira.

Quando se gosta quer-se que a pessoa de quem gostamos seja nossa, como se fosse um direito. E se estiver escrito em "Diário da República" tanto melhor. Algo como "Declaramos para os devidos efeitos que a jovem etc. e tal é propriedade de Fernando Alvim, sua e apenas sua, seu grande malandro!". As coisas infelizmente não são assim e já ninguém é de ninguém, já ninguém dá a mão, na melhor das hipóteses faz-se um "leasing", arrenda-se a mão ou coisa do género. Não gosto nada disto. O que eu gostava mesmo era de lhe perguntar: de quem são estas mãos? E ela dizer "são tuas!"; de quem é esta boca? "É tua!"; de quem é este cabelo? "É teu!". Contudo, as defesas apoderam-se de nós, sentimos o ritmo cardíaco a aumentar e "ai a minha vida a andar para trás", estamos com aquela pessoa de quem tanto gostamos e pensamos "não lhe posso mostrar que gosto já dela senão está tudo estragado!" temos a oportunidade de estarmos juntos logo naquele dia e "ai que isto não é bem assim".

Talvez por isso eu não percebo este amor que pensa e reflecte. O amor, a paixão, o desejo - todos parentes próximos de uma mesma família - não pensam muito, porque não existe uma lógica, uma norma a seguir, um "agora temos de ir ao cinema, jantar, teatro, exposição" e "vê lá o que está a dar na televisão!?" e "olha que eu não sou dessas" e ainda dez mensagens por dia! Para mim basta-me saber que gosto - e gosto - e perceber que o meu corpo responde por mim - e responde. Não tem de haver pressa! - dizem alguns. Não tem? Ai não que não tem! O desejo não me parece ser algo tranquilo, é exactamente o contrário, é stressadinho, fuma cigarro atrás de cigarro - saia da frente que tenho pressa! -, o desejo buzina ao cair do semáforo verde, é taxista em hora de ponta - saia daí senhor! -, quer passar à frente de todos tipo chico esperto -, tem urgência em chegar, quer ser rápido para se manifestar junto de quem gosta. Quando gosto de alguém, não quero saber se aquele ou outro acredita nisso, não me interessa até perceber se ela própria acredita. O que me interessa mesmo é que eu saiba isso - e sei - é que eu acredite - e acredito - e que seja verdade - verdadinha.

Sem comentários: